segunda-feira, 21 de novembro de 2016

CAZUZA VIVE

Charge do Benett, no Gazeta do Povo


Temer cortou a bolsa de Ronaldo, mas não os vôos de jatinhos para seus Ministros


Por Luis Nassif

Conheci o jovem Ronaldo Rodrigues Alves Braga em um evento do Colégio Rio Branco, do Instituto Semear, para amparar financeiramente jovens brilhantes sem condições financeiras.

Vindo de escola pública, do bairro de Francisco Morato, Ronaldo passou em terceiro lugar no curso de Ciências Sociais da USP. Sua apresentação foi brilhante. Falou das condições de Francisco Morato, de como passou a organizar seu grupo para reivindicar junto ao poder público. 

Sem apoio da mídia local, recorreram às redes sociais. A sequência de apresentações, dele e de outros alunos, aumentaram minha fé na rapaziada que está nascendo.

Pois o Ronaldo passou em um processo seletivo para estudar por 6 meses ciências políticas na Sciencies Po., uma das melhores do mundo.

Quando se preparava para voar, o governo Temer cortou os subsídios para intercâmbio. Uma viagem de jatinho da FAB de José Serra para São Paulo equivale ao custo do curso e ainda sobra troco.

Sem alternativa, Ronaldo está recorrendo a uma vaquinha virtual.

Vá conhecer sua história no endereço https://www.catarse.me/ronaldonasciencespo_2017

Mais quantos protestos serão necessários?

 O protesto contou com a participação de moradores e turistas. - Foto: Uapi/Divulgação/Notisul

Moradores de bairros da Ilha (Laguna) realizam mais um ato contra cobrança integral da travessia da balsa. Valor para cada carro é de R$ 13,00.

Por Rafael Andrade, Notisul

 “Estivemos no atracadouro da balsa, onde, unidos com moradores das comunidades da região da Ilha demonstramos com discursos e cartazes a nossa insatisfação devido ao preço da tarifa cobrada, a falta de banheiros e estrutura precária das balsas menores que realizam a travessia. 

Chegou-se ao consenso que precisamos ter urgência no diagnóstico do fluxo de veículos que utilizam a balsa diariamente. Assim, podemos ser beneficiados com nossos direitos. Nosso objetivo é buscar encaminhamentos para que o assunto seja tratado com prioridade. 

Não podemos nos calar diante de uma situação na qual o direito de ir e vir da população da região da Ilha é interrompido”. Assim resumiu a presidente da União das Associações de Pescadores da Ilha (Uapi), Maria Aparecida dos Santos Ramos, a Cida, após o protesto organizado no bairro Ponta da Barra, em Laguna, às margens da Lagoa Santo Antônio dos Anjos.

Só para sintetizar a pauta, quem mora na Ilha (nas localidades da Ponta da Barra, Passagem da Barra, Campos Verdes, Galheta, Ipuã, Cigana, Cardoso e Farol de Santa Marta) precisa desembolsar R$ 26,00 por dia para atravessar de carro para ir e retornar do trabalho no centro de Laguna. 

Se ganha salário mínimo (R$ 88,00) e precisar fazer o trajeto 25 dias por mês, por exemplo, terá de arcar R$ 650,00. Se o cidadão não ganhe benefício de vale-transporte ou ajuda de custo do combustível, como fica?

 O pedido dos moradores não é da isenção integral da taxa, mas um desconto de 50%.

Os proprietários da Laguna Navegação - empresa que detém o direito das travessias - relutem à reivindicação. 

A prefeitura já foi contatada, chegou a confeccionar um documento para que o pedido fosse colocado em prática e até agora... nada. Mais quantos protestos serão necessários?

Surf: Laguna é incluída em evento internacional Surf

Praia do Cardoso, yotube

A World Surf League (WSL), através de seus representantes no Brasil, no meio de semana divulgou o calendário para 2017, destacando as mudanças da etapa do ChampionshipTour, do Rio de Janeiro para Saquarema, no estado do Rio (de 9 a 20 de maio) e a inclusão da praia do Cardoso, em nossa cidade, especialmente na divisão de acesso ao Big Wave Tour, o famoso circuito mundial de ondas gigantes. 

Lembrando que o primeiro evento da WSL no Brasil ano que vem, acontecerá na Praia do Forte, etapa baiana com status QS 1.500 que contará com as categorias masculina e feminina, entre os dias 25 e 30 de abril.


A WSL também informou que a janela de espera do Big WavePaddle-In Challenge será aberta dia 10 de julho e irá até 15 de outubro. 

Só para se calcular a importância do grande evento, ele terá outras duas etapas, sendo uma no Oregon, nos Estados Unidos e outra no Pais Basco.

Jornal de laguna

domingo, 20 de novembro de 2016

Discriminação por raça deprecia força de trabalho das mulheres negras

Para que a inserção de trabalhadoras negras no mundo laboral seja mais qualificada, não basta esperar mudanças espontâneas: especialistas defendem políticas públicas voltadas a empresas

No Dia da Consciência Negra, a série “Empoderamento feminino” traz à tona dificuldades vivenciadas por mulheres pretas e pardas. Relatório do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que não há muito a comemorar e afirma que as afrodescendentes “enfrentam uma dupla discriminação no mercado de trabalho, de raça e de gênero”. Entre essas mulheres, na capital federal, a taxa de desemprego é a mais elevada, e o valor pago por hora trabalhada é o mais baixo (saiba mais em A dimensão da disparidade no DF). A exclusão se repete nos demais locais avaliados pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED): Fortaleza, Porto Alegre, São Paulo e Salvador.

Daniblack ministra oficinas para conscientizar jovens sobre a identidade negra

Os números foram divulgados na última semana, mas eram esperados. “A negra é a maior vítima do mercado de trabalho”, pondera frei David Santos, diretor executivo da organização não governamental Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes). Na visão dele, essa realidade é fruto dos quase 400 anos de escravidão de negros no Brasil e do fato de, mundialmente, a mulher ser mais oprimida. O diretor da ONG vê poucos avanços sociais e avalia que, em muitos casos, a escravidão apenas mudou de formato.

“Não tem dois anos que as empregadas domésticas — em maioria, negras — foram igualadas a outros trabalhadores”, comenta. No DF, 14% das negras e 9,7% das não negras são domésticas. Mesmo entre as profissionais pretas e pardas que tiveram acesso a boa educação e ocupam posições de melhor remuneração, o racismo afeta o dia a dia. “Estive com uma dentista negra que, volta e meia, é tratada como assistente, e houve  pacientes que se recusaram a ser tratados por ela”, exemplifica.

Professora de comunicação e serviço social da Universidade Católica de Brasília (UCB), a doutora em comunicação e pesquisadora de raça e gênero Isabel Clavelin observa que as negras se encontram na base da pirâmide social. “Nas relações de trabalho, isso afeta objetivamente o ingresso, o acesso a promoções, a permanência, o salário... Elas se deparam ainda com outras dificuldades, como assédio sexual e moral.” Essa estrutura é perpetuada, na opinião da pesquisadora, por uma conivência das empresas com o racismo. “As companhias sabem da situação, mas pouco fazem”, diz. Exemplo disso é que as negras são apenas 0,4% das executivas do país, segundo dados do Instituto Ethos sobre as 500 maiores empresas do país.

Dione Moura, professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB), analisa que profissionais pretas e pardas enfrentam diversos obstáculos — o primeiro deles, socioeconômico, que leva a piores condições de educação. “Existe ainda uma visão de que elas são menos capazes para o trabalho”, diz a doutora em ciências da informação.

Estética

O racismo o perpassa, inclusive, aspectos estéticos. Em muitos casos, as próprias pretas e pardas têm em mente um ideal de beleza europeu e, em outros, há cobranças para que elas se sujeitem a ele. “Quando a primeira desembargadora negra do Rio de Janeiro — Ivone Caetano — foi tomar posse, um desembargador perguntou se ela participaria da cerimônia com aquele cabelo”, exemplifica frei David Santos.

“O preconceito não é causado pelo cabelo, pelo turbante ou pela roupa, mas pelo que as pessoas acham que isso significa. O brasileiro tem dificuldade de lembrar o período de escravidão, então optou por negar os elementos africanos. Há uma fuga em reconhecer a identidade negra, e as dívidas decorrentes dela. É uma tentativa de apagar essa ancestralidade que foi injustiçada. O mesmo acontece com os indígenas”, analisa Dione Moura.

Essa tentativa de eliminar o débito social também poderia explicar a rejeição às religiões de matriz africana. “Os escravos foram impedidos de cultuar deuses próprios. Até hoje, esses ritos são considerados, por muitos, como inapropriados”, comenta Isabel Clavelin. “Isso também afeta o mundo do trabalho, pois pessoas dessas religiosidades são julgadas como macumbeiras. É mais uma discriminação”, diz.

Soluções

“A humilhação que a mulher negra passa, desde o período colonial, só será vencida com o trabalho conjunto da sociedade e com boas políticas públicas”, propõe o frei David Santos, da Educafro. As pesquisadoras Dione Moura e Isabel Clavelin concordam. “Precisamos de medidas que responsabilizem as empresas. Não dá para o mercado se regular. Iniciativas de adesão voluntária — como o Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, do governo federal — têm pouca adesão. É preciso criar sanções”, defende Isabel. Para ela, como as organizações, em geral, não enxergam a falta de inserção de trabalhadoras negras como um problema, cabe ao governo trabalhar essa questão de cima para baixo.


Opções que se mostraram positivas, na visão da professora Dione Moura, são a Lei nº 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade de temas sobre a história e a cultura afro-brasileiras no ensino básico, e as cotas raciais no ensino superior público, para  aumentar o número de profissionais graduados negros. No entanto, é preciso ter mais políticas públicas efetivas para o mercado de trabalho. Ela cita os Estados Unidos como a nação com ações mais fortes com relação a isso. “Esse país desenhou o perfil das empresas para perceber se elas são inclusivas ou não. Mesmo lá, a solução não foi definitiva (já que essas medidas não acabam com o racismo, mas garantem acesso a melhores condições socioeconômicas): há poucos dias, a primeira-dama Michelle Obama foi alvo de racismo, e isso teve consequências.”

Correio Brasiliense

Dia da Consciência Negra: de forma diferente, racismo no futebol ainda sobrevive ao tempo

Momento 1: sem negros no futebol e pioneirismo (alguns defendem que foi consequência da massificação)

No início, os negros e pobres eram proibidos até de participar de “grandes jogos” de futebol (esporte considerado aristocrático). Com o passar dos anos, eles não só conquistaram espaço como também se tornaram ídolos. Mesmo assim, muitos não conseguiram se livrar de um problema: o racismo no esporte.
Mesmo que de forma diferente, mais velada, a discriminação racial persiste no esporte. Em contrapartida, grupos que defendem a igualdade racial estão sempre atentos para denunciar. De acordo com a pesquisadora Ana Paula da Silva (que fez uma tese de doutorado sobre o assunto) e Marcelo Carvalho (do Observatório da Discriminação Racial do Esporte), é possível identificar uma evolução no tratamento da questão racial no futebol em paralelo com a história do esporte no Brasil. Clique aqui para ler a íntegra do estudo.
Quando o futebol chegou ao Brasil, no início do Século 20, era considerado um esporte nobre. Logo, as grandes competições do “esporte bretão” (nome dado pela origem britânica do futebol), praticado pelas elites do Rio e São Paulo, não permitiam negros. De acordo com o Observatório Racial do Futebol, o registro de “pessoas de cor” foi proibido no futebol carioca em 1907, depois de Francisco Carregal, negro, ter jogado pelo Bangu em 1905.
A situação ocasionou tentativas de disfarçar a cor. Arthur Friedenreich, primeiro “craque” do futebol brasileiro e filho de um alemão com uma negra, esticava o cabelo para “parecer mais branco”. Carlos Alberto, do Fluminense, usava pó-de-arroz para disfarçar a cor. A prática fez com que a equipe, pejorativamente no início, fosse apelidada de pó-de-arroz. A proibição de negros não resistiu à massificação do esporte. Logo, a primeira vitória foi poder “jogar sem estar disfarçado”.
Momento 2: a profissionalização e craques negros
Creative Commons - CC BY 3.0 - Brasil x Polônia em 1938. Foto: Wikimedia Commons

A “primeira vitória dos negros” se deu mais por uma questão técnica do que de luta por direitos iguais. Em 1922, o Vasco se tornou imbatível no Campeonato Carioca. O time era, predominantemente, negro e mestiço. Ana Paula aponta, em seu estudo, que os outros times aceitaram negros por uma questão de competitividade. Enquanto os jogadores amadores defendiam o esporte praticado por brancos, o profissionalismo pregava que “quem era melhor, jogava, independentemente de cor ou classe social”.
A “abertura” e o desempenho de negros fizeram com que alguns jogadores conquistassem uma ascensão social. Isso não fez com que o racismo acabasse. Leônidas da Silva, craque a Copa de 1938 e chamado de “Diamante Negro”, sempre enfrentou desconfiança na “alta sociedade”. As acusações de “mercenário”, “rebelde” e até acusações por roubo eram consequências de seu sucesso.
Para Marcelo, Leônidas da Silva foi uma figura muito importante para o negro no futebol justamente por conseguir colocar a figura de um negro “estar no topo”. “Ele foi o primeiro atleta assinar um contrato de publicidade. Quebrou um paradigma na sociedade, com certeza”, diz.
Momento 3: Pelé, o estereótipo de craque e a falta do discurso racial
Creative Commons - CC BY 3.0 - Pelé x zagueiros da Suíça em 1958. Foto: Wikimedia Commons

O desempenho de Leônidas e o próprio preconceito fez um estereótipo aparecer no meio futebolístico: o do “negro, pobre e craque”. O discurso, que hoje parece limitador na posição do negro na sociedade, era visto positivamente. E neste sentido, Pelé foi uma figura ímpar. Mesmo ganhando apelidos durante toda a carreira por causa da cor, o desempenho dele fazia o negro ser sinônimo de bom jogador:
“As atitudes do Pelé nem sempre foram questionadas. Nos anos 50 e 60, quando consolidou sua carreira, ele era visto como um exemplo até mesmo para alguns setores dos movimentos negros. Pesquisei publicações de alguns desses movimentos e, também, jornais de esportes da época e Pelé era entendido como um modelo a ser seguido”, aponta Ana Paula.
As controvérsias em relação ao comportamento de Pelé nas questões raciais começaram com o fortalecimento dos movimentos negros e a Ditadura. Figura de referência, ele passou a ser cobrado a uma postura mais firme em relação ao racismo. Alheio à questão, ele passou a ser personagem de sátiras em jornais como o Pasquim.
Creative Commons - CC BY 3.0 - O Pasquim sobre Pelé. Imagem: Reprodução

“Em meados dos anos 70 as discussões em torno das questões raciais mudaram e Pelé não se atualizou em relação a elas e continuou com o pensamento dos anos 50. Por essa razão, passou a ser criticado e até se constituir como um antimodelo das lutas dos movimentos negros”, conta Ana Paula.
Marcelo reitera que ele foi importante, mas poderia ter feito mais: “Pelé foi importante por ser um atleta negro com representatividade. Foi um exemplo para muito meninos terem ascensão social com o esporte. Mostrou que é possível chegar. Por outro lado, também ajudou a deixar a impressão de que o jogador é alienado. Como maior atleta do século, nunca teve posicionamento. Nunca foi favorável a lutas raciais e sociais”.
Momento 4: Pós-Panteras Negras e sinais de movimentos raciais no esporte
Com Pelé como “antimodelo” da luta racial (sendo acusado até de negar a cor), outras figuras emergiram em defesa aos movimentos sociais nos anos 1970. No Brasil, uma das mais proeminentes era de Paulo Cezar Caju. Após a Copa de 1970, ele começou a excursionar pelo mundo com o Botafogo. Em uma das viagens conheceu o movimento Panteras Negras.
Após isso, ele começou a se identificar com figuras que lutavam pela igualdade racial, assumiu o black power e pintou o cabelo de Caju “em homenagem à raça”. A partir daí,, ele ganhou o apelido e virou um modelo de luta nos anos 1970. Por outro lado, ele passou a ser visto como “contestador” e “bad boy”. Em termos de imagem, ele acabou em situação semelhantes a que Leônidas da Silva tinha 30 anos antes. E, apesar da questão racial começar a ser discutida, ainda não existiam punições
Momento 5: O racismo passível de punição e muito a evoluir
Apenas nos anos 2000, as entidades começaram a enxergar o racismo como uma prática passível de punição. De acordo com o Observatório do Futebol, a primeira punição a um clube no Brasil aconteceu apenas em 2005. À época, o Juventude (RS) perdeu dois mandos de campo e foi multado em R$ 200 mil por atos racistas contra o jogador Tinga (do Internacional).
Tinga, inclusive, sofreu quase dez anos depois, outro ato de racismo. Em um jogo no Peru, ele ouviu torcedores imitando sons de macacos quando ele tocava na bola (mesma atitude da torcida do Juventude). Ao final do jogo, ele disse que trocaria “todas as glórias por título contra o preconceito”. Hoje, ele é um dos símbolos contra o racismo.
Para além das punições (como a eliminação do Grêmio da Copa do Brasil de 2014 por causa de insultos a Aranha), ainda há o que evoluir. “A questão do racismo no futebol é muito latente e ainda pouco debatida pelos clubes, jogadores e federações. O que há hoje são mais denúncias. Não foram os casos que aumentaram e sim as denúncias”, diz.
Marcelo também alerta para o “racismo institucional no esporte”, um ponto que precisa ainda ser superado. “Não existe nenhum clube brasileiro que tenha menos de três atletas negros. Mas o racismo institucional existe. Não vemos técnicos negros, dirigentes negros e presidentes de clubes negros. Nisso ainda precisa evoluir. O mesmo racismo institucional que a gente vê fora do futebol, a gente vê no futebol”.
Para Ana Paula, as coisas vão melhorar quando a sociedade melhorar contra o racismo. “O estádio de futebol não é um lugar a parte da vida social. Ela por si só não dá conta das complexas e profundas consequências de um dos países mais desiguais do mundo e que foi o último a abolir a escravatura. São feridas profundas que ainda demorarão a ser curadas”, aponta.
Por Edgard Matsuki e Patrícia Serrão Edição:Luiz Cláudio Ferreira Fonte:Portal EBC

Relembrando o sucesso do Chanceler Joseph Cerra em Washington, por Sebastião Nunes


por Sebastião Geraldo Nunes, blog de Cultura no GGN

Repare, ilustre leitor, que esta ilustração de Fausto Prats é de 2014, quando FHC e Aecim imaginavam ganhar o segundo turno da eleição presidencial. Foi usada então e é usada de novo, sem tirar nem pôr, já que em pouco muda este imenso Bananão.
        Pois bem. De volta à praia do Leblon com seus tucanos de estimação, os andarilhos aplaudiam o tremendo sucesso do chanceler Cerra em Washington.
        – Estou mais do que orgulhoso – disse Aecim. – Sem nunca duvidar das virtudes morais, intelectuais e cívicas de nosso companheiro, não esperava tanto.
        – Nem eu – referendou FHC. – Sucesso igual, e eu até diria maior, só lembro o meu nos bons tempos de Paris e adjacências. Estrondoso, sem dúvida alguma.
        – Fizeste bem, ó Mestre, em sugerir o nome dele para ministro das relações extraterrestres, quero dizer, extravagantes, isto é, exteriores.
        – Sei o que faço, meu filho – respondeu FHC que, pela frase seguinte, dá nítidas mostras de destempero intelectual: – Jamais cometi um único erro em toda a minha longa e profícua vida pública.
        E como o céu não lhes caiu na cabeça nem um raio estorricou seus esqueletos, o papo seguiu, nobre e virtuoso como seria de se esperar de tais sumidades.

MAS, PORÉM, CONTUDO, TODAVIA
        – Só estranhei a opinião dele antes da eleição nos Istates – disse Aecim. – Acho que deveria ter esperando o resultado para falar em “pesadelo”, caso Trump fosse eleito.
        – É, foi uma mancada braba, mas depois ele consertou – disse FHC. – Declarou, com todas as letras e na maior cara de pau, que “a gente só tem pesadelo dormindo”.
        – Isso está me cheirando a remendo, Mestre – argumentou Aecim. – Como é mesmo aquela expressão? Pior o soneto do que a ementa?
        – Não é ementa, meu filho – consertou FHC que, esquecido do pouco que um dia soubera de português, direito, política, filosofia e outras ciências mais ou menos exatas, mesmo assim dava um jeito de ensinar algo do que mal não sabia ao dileto discípulo. – A expressão certa é emenda. E a frase correta é “pior a emenda que o soneto”.
        – E qual é o significado de tão deliciosa figura de linguagem, Mestre? – indagou o iletrado Aecim. – Será que entendi direito?
        – Quer dizer, meu filho, que é melhor esquecer, que não vale a pena levantar a lebre, que é melhor não mexer em bosta pra não feder mais.
        – Ih, ih, ih, Mestre – riu-se Aecim. – Quer dizer que o Cerra andou mexendo com bosta e ficou fedendo?
        FHC suspirou fundo, pensando com seus botões: “Infeliz do país – e do partido – que tem uma besta desse calibre liderando alguma coisa”.

CONTINUANDO A DOUTRINAÇÃO
           Sem outra saída, pois “tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas”, FHC suspirou fundo e resolveu que era melhor manter a calma. Podia mandar Aecim à merda, podia dizer tchau e bença, podia desaparecer na primeira esquina, podia... É, podia fazer muita coisa, mas não valia a pena. Como é aquele outro ditado? Pau que nasce torto... Pois é. O Aecim nasceu tão torto que até eu passo por gênio perto dele. Cruzes! Mon Dieu! Caraca!
        – Não, meu filho – continuou paciente FHC. – Eu quis dizer que o Cerra deveria ter permanecido calado. Tem aquele outro ditado, não sei se já ouviu, em boca fechada não entra mosca. Também serve para o caso.
        – Esse eu não conhecia, Mestre – disse Aecim. – Conheço é aquele outro, que não dá pra usar aqui: Quem tem boca vai a Roma. Ainda se fosse Washington...
       
MAS QUE DIABO É ISSO?
        Sonolentos, os bípedes emplumados seguiam, presos em suas coleiras, os bípedes implumes. De repente, ouvindo tanta leseira, um deles disse para o outro:
        – Vixi Maria, compadre. Veja só onde fomos amarrar o burro. Será que não havia gente mais esperta pra nossos acompanhantes?
        – Infelizmente não, compadre – disse o segundo tucano. – Algum marqueteiro idiota achou de usar nossa imagem como símbolo do partido deles, e deu no que deu.
        – Mas que puta azar, compadre – desanimou o primeiro tucano. – Por que não escolheram a anta, por exemplo? Combinava melhor, não combinava?
        – Combinava, compadre – disse o segundo tucano. – Mas agora Inês é morta.
        – Inês, qual Inês? – espantou-se o primeiro tucano. – Que Inês é essa, e como e por que ela foi morta? Assalto? Sequestro? Tarado estuprador?
        O segundo tucano abriu o enorme bico num imenso bocejo e pensou: “É, acho que o símbolo do PSDB tinha de ser tucano mesmo. O que tenho eu de inteligente tem meu compadre de burro”.
        Calados, contrafeitos, contristados, contrariados, continuaram o passeio.

SERRANDO DE NOVO O CERRA
        – Mas não podemos reclamar, não é mesmo, mestre? – interrogou Aecim, voltando ao diplomata de proveta. – Ter um ministério importante no governo golpista está de bom tamanho, me parece. Melhor que nada.
        – Pois te parece mal, meu filho – remediou FHC. – Esse tal de ministério das relações exteriores é só um cala-boca dos mais manjados. Até eu mesmo... Epa! Cala-te boca, melhor deixar pra lá, desconsertou ele, só murmurando o final.
        Como foi mesmo esse negócio?
        
Enfim, vamos deixar pra lá nós também. O que passou, passou.

        Continuou o bando de desocupados seu agradável passeio: FHC, Aecim, o primeiro tucano e o segundo tucano. O sol se punha no horizonte. E a República do Bananão, deitada eternamente, seguia firme e célere na direção do abismo.