sábado, 27 de junho de 2026

O século dos imbecis

 

A partir da obra de Valter Hugo Mãe, uma reflexão sobre o avanço da ignorância, a erosão democrática e os desafios do nosso tempo. 

Por Núbia Silveira no 3 RED (Rede Estação Democrática) 

 O título deste texto é o do último romance do angolano Valter Hugo Lemos, internacionalmente conhecido como Valter Hugo Mãe. O livro comemora os 30 anos de sua carreira literária. E revela o “processo de desilusão” que o escritor vive em consequência das “decisões coletivas” tomadas pelo “mundo afora”. Desilusão que vem afetando a muitos de nós, que acompanhamos os desdobramentos políticos, aqui e acolá. 

Ao repórter Luís Ricardo Duarte, do suplemento de cultura do diário português Público, Mãe se disse, em entrevista publicada no dia 19 de junho de 2026, “perplexo e frustrado” por ver que “ao invés de estarmos interessados na sofisticação da consciência humana, andamos fascinados com o regresso a uma certa infantilidade”. Me sinto representada tanto na perplexidade e na frustração quanto na sua percepção de que a humanidade deixou de caminhar “no sentido de se afastar do ‘bicho’ que foi”. “Ora, neste instante, parece que estamos a desistir desta caminhada, perdendo capacidades, como se fizéssemos o percurso inverso, e estivéssemos a regressar ao tal ‘bicho’ que já fomos”, disse ele ao repórter Filipe Luís, da revista portuguesa Visão, de 18 a 24 de junho de 2026.  

A realidade que nos assusta e ameaça com tantas voltas atrás, com perdas de direitos pelos quais lutamos por décadas, se explica pela “glorificação dos estúpidos”. Atualmente, vivemos o que o escritor qualifica de “um tempo de ignorância feliz”, em que a ignorância e a imbecilidade, antes mal-assumidas, são agora, desavergonhadamente, aceitas e defendidas. Eis aí, me parece, algo a ser cada vez mais denunciado e debatido. É inadmissível aceitar a exaltação do desconhecimento, da mentira e da violência. 

Nas entrevistas, Mãe revela que o título dado ao livro “não anda longe de uma certa vingança, da vontade de dar nome a alguns bois”. Imaginamos alguns (ou muitos?) deles, não é mesmo? 

Interessantes são os alertas dados pelo entrevistado sobre os perigos que vivenciamos e que devemos combater. Um deles: “Não se vislumbra qualquer transformação positiva e isso faz de nós uma geração suicida”. Outro: “Aproximamo-nos de uma cidadania demissionária”. De uma cidadania “cada vez menos participativa, cada vez menos capaz e cada vez mais interessada no lúdico, interessada numa satisfação imediata e, eventualmente, improdutiva, em que substituímos o ‘saber fazer’ por uma espécie de passividade, uma passividade de ‘observador’”. Como aumentar a participação? Este me parece ser o grande desafio, principalmente, neste momento em que nos preparamos para definir o nosso futuro como nação independente e soberana. 

Para mim, o maior recado do angolano trata do que pode resultar da ignorância vivida neste século da informação: 

– Que dramático será concluirmos que a democracia é uma desvantagem, porque não investimos na instrução básica e ética da população. O grande desafio que enfrentamos é confrontarmo-nos com uma humanidade despreparada para decidir sobre si própria. 

E aqui mais um grande alerta de Mãe: “Não faltam por aí formas de enfraquecer as democracias, numa aposta deliberada na estupidificação das pessoas e na afirmação de regimes autoritários. Como se apenas uma elite pudesse continuar a qualificar-se, como se a humanidade fosse novamente dividida pela ideia de castas. A desumanização das multidões em prole de elites torpes e maldosas, tão elementares e assumidas, tão indecorosas, é uma caricatura da própria tirania, com toda a sua burrice, infantilidade e violência”. 

Sim, há muitas formas de enfraquecer as democracias. No entanto, em tempos de internet, controlada por quem mostra ter “uma enorme miséria ética e humana”, é impossível conhecer e dominar todas as formas que serão utilizadas contra as democracias em favor das tiranias e de seus asseclas. Portanto, precisamos nos manter vigilantes, sempre atentos às narrativas que não passam de mentiras e acobertam ações contra a democracia e que pintam o autoritarismo como o melhor regime sob o qual se viver.  

PS: Valter Hugo Mãe lançará O Século dos Imbecis durante a FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, que ocorrerá de 22 e 26 de julho. 

 

Foto de capa: Divulgação | IA 

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