Numa primeira avaliação, o
discurso do presidente Jair Bolsonaro na ONU foi falso e terá impacto danoso
para a imagem internacional do Brasil. Foi falso porque negou a realidade que
os dados mostram e que o mundo inteiro conhece: cresceram o desmatamento e as
queimadas na Amazônia no primeiro ano da administração Bolsonaro. Além de
falso, o discurso foi desastroso.
Por Kennedy Alencar
A verdade: está em curso no
Brasil uma política de desmonte da proteção ambiental criada ao longo das
últimas três décadas. Foram enfraquecidos órgãos de fiscalização, como o Ibama
e o ICMBio. Ricardo Galvão, um cientista respeitado, foi derrubado da direção
do Inpe por dizer a verdade: cresceu a devastação da floresta tropical
brasileira, conforme alertas do sistema Deter.
Há sinais públicos e notórios de estímulo a fazendeiros e garimpeiros ilegais
dados por Bolsonaro e seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Esse
ministro adota políticas contra avanços ambientais. Bolsonaro faltou com a
verdade ao dizer que a mídia mente sobre a devastação na Amazônia.
Bolsonaro destacou a soberania brasileira sobre a Amazônia. Ora, essa soberania
não está em questão. É teoria conspiratória alimentada por setores das Forças
Armadas. É uma visão obtusa num mundo que sofre com o aquecimento global, algo
negado por nosso ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.
A solução é global. São legítimas as preocupações internacionais sobre a
Amazônia. A proteção da floresta tropical interessa a cidadãos do mundo, mas
sobretudo aos brasileiros, que poderão sofrer consequências negativas na
agricultura e no abastecimento de água se a Amazônia for devastada a um ponto que
impeça ou torne muito difícil a sua sobrevivência.
O que está em questão, portanto, é a preservação da Amazônia. Também importa o
fortalecimento da fiscalização que foi deliberadamente enfraquecida pelo atual
governo. Mas Bolsonaro e Salles adotam caminho contrário ao meio ambiente. Os
satélites da Nasa e a comunidade científica mundial têm como averiguar os dados
da devastação no Brasil.
Esse negacionismo de Bolsonaro, num tom duro, com cores religiosas e claramente
irrealista diante de 193 mandatários estrangeiros e seus representantes, só vai
piorar a imagem brasileira no exterior. O mundo já percebeu que Bolsonaro, além
de autoritário e demagogo de extrema-direita, é um inimigo da preservação
ambiental e do combate ao aquecimento climático. Seu discurso aprofundou essa
percepção perante líderes mundiais na abertura hoje da Assembleia Geral das
Nações Unidas, em Nova York.
Fala desastrosa
Bolsonaro disse que seu governo tem “compromisso solene com a preservação do
meio ambiente”. Culpou o clima seco e falou em “queimadas espontâneas”. Falou
em ataques sensacionalistas da imprensa internacional, que retratou a realidade
do que acontece lá. Sugeriu que o presidente da França, Emmanuel Macron,
comportou-se com espírito irrealista, num tom nada conciliador. Alfinetou
França e Alemanha, fundamentais para o acordo União Europeia-Mercosul sair do
papel
Sugeriu que continuará com medidas para implementar atividades econômicas em
reservas indígenas e que não demarcará mais áreas desse tipo. Falou que cacique
Raoni é usado por países estrangeiros. Atacou ONGs que desejariam manter os
índios “como homens da caverna”. Afirmou que fará “nova política indigenista”
no Brasil. Negou retrocessos sociais em direitos humanos e na política de
segurança pública.
Além de falso, o discurso é desastroso do ponto de vista da imagem
internacional. Irrealista, agressivo em relação a países que enxergariam o
Brasil “como colônia”. Soou absurdo o presidente dizer que “meu país esteve
muito próximo do socialismo” e sugerir que cubanos do programa Mais Médicos
seriam agentes socialistas parecidos com espiões de Cuba nos anos 60.
O Brasil nunca esteve próximo do socialismo. Isso é mentira. É totalmente
insensata essa ideia de risco socialista no Brasil e na América Latina. Pega
mal internacionalmente, parece paranoico e antiquado.